O companheiro ou companheira em união estável tem direito à pensão por morte do INSS no mesmo patamar do cônjuge formalmente casado. A diferença operacional, no entanto, é importante: enquanto o casamento é provado pela certidão, a união estável exige um conjunto de provas. Este é o ponto que gera mais indeferimentos administrativos e a maior fatia das ações judiciais em pensão por morte. Este guia organiza o que é aceito como prova, jurisprudência atual, união homoafetiva e o que fazer quando o INSS nega.

Pensão por Morte para Companheiro em União Estável

Resumo rápido

  • Companheiro em união estável tem mesmo direito que cônjuge.
  • União hetero e homoafetiva têm tratamento equivalente (STF, 2011).
  • Prova: conjunto de documentos contemporâneos + testemunhas.
  • 18 contribuições do falecido + união por mais de 2 anos para duração regular.
  • STJ aceita prova testemunhal complementada por documento.

Índice deste guia

Fundamento legal

A Lei 8.213/91, art. 16, I, equipara cônjuge e companheiro(a) em união estável para fins de pensão por morte. O Código Civil (art. 1.723) define união estável como “convivência pública, contínua e duradoura, estabelecida com o objetivo de constituir família”.

Como comprovar a união estável

Não basta dizer “moramos juntos”. O INSS exige conjunto de provas documentais. Quanto mais documentos contemporâneos da relação, melhor.

Documentos fortes

  • Escritura pública declaratória de união estável em cartório.
  • Contrato particular de união estável (com firma reconhecida).
  • Certidão de nascimento de filhos em comum.
  • Documento de inclusão como dependente em plano de saúde.
  • Apólice de seguro com inclusão do companheiro.
  • Declaração conjunta de Imposto de Renda.
  • Conta bancária conjunta.

Documentos intermediários

  • Comprovantes de endereço comum (luz, água, contratos de aluguel).
  • Procurações entre o casal.
  • Testamento mútuo.
  • Cartões de crédito adicionais.
  • Fotografias em ocasiões familiares.
  • Convites de casamento ou eventos com nome dos dois.

Documentos auxiliares

  • Postagens em redes sociais demonstrando convivência pública.
  • Mensagens (WhatsApp, e-mails) que demonstrem vida em comum.
  • Declaração de vizinhos, parentes, amigos.

União homoafetiva

O STF, em 2011, no julgamento da ADI 4277 e ADPF 132, reconheceu a união estável homoafetiva como entidade familiar para todos os fins. Desde então, o INSS reconhece administrativamente, com mesma documentação exigida para uniões heterossexuais.

Pessoas LGBTQIA+ que enfrentavam histórico de discriminação no reconhecimento administrativo hoje têm sustentação jurídica firme. Casos de negativa devem ser questionados imediatamente.

Regra das 18 contribuições e união de 2 anos

A pensão por morte não tem carência: o benefício é devido qualquer que seja o número de contribuições do falecido, desde que mantida a qualidade de segurado. As 18 contribuições e os 2 anos de união interferem apenas no tempo de pagamento da cota do cônjuge ou companheiro:

  • Falecido devia ter ao menos 18 contribuições mensais.
  • Casamento ou união estável de pelo menos 2 anos.

Sem esses requisitos, a duração do benefício é limitada a 4 meses. Exceções: óbito por acidente de qualquer natureza ou decorrente de doença profissional ou do trabalho (art. 77, §2º-A, da Lei 8.213/91).

Quando o INSS nega

Indeferimento mais comum: “documentação insuficiente para comprovar união estável”. Causas frequentes:

  • Casal não tinha escritura declaratória.
  • Não havia conta conjunta nem dependência declarada em plano de saúde.
  • Documentos contemporâneos eram esparsos.
  • Companheiro residia em endereço diferente em alguns períodos.

Caminhos de defesa

  • Recurso administrativo ao CRPS em 30 dias, com nova documentação.
  • Ação judicial no JEF: a via que permite audiência de instrução, com oitiva de testemunhas para complementar a prova documental. STJ tem jurisprudência favorável quando há início de prova material.

Concorrência entre cônjuge e companheiro(a)

Pode ocorrer quando o falecido tinha casamento não desfeito formalmente e união estável em paralelo. O entendimento do STF é que a união estável concomitante ao casamento não gera direito a rateio da pensão (Tema 526, RE 883.168; Tema 529, RE 1.045.273, para a união homoafetiva). Situação diferente é a do falecido separado de fato: nesse caso a união estável é válida e o companheiro pode concorrer.

Pensão alimentícia do ex-companheiro

Ex-companheiro que recebia pensão alimentícia do falecido pode ter direito à pensão por morte, na proporção da dependência. Sem pensão alimentícia documentada, em regra não há direito.

Passo a passo do pedido

  1. Reúna o conjunto de provas da união estável, quanto mais documentos contemporâneos, melhor.
  2. Obtenha a certidão de óbito e os documentos do falecido (RG, CPF, CNIS).
  3. Identifique testemunhas que possam confirmar a convivência pública e duradoura.
  4. Acesse o Meu INSS e selecione “Novo Pedido > Pensão por Morte”.
  5. Anexe toda a documentação e protocole. Guarde o número do protocolo: a meta de análise do INSS é de 45 dias.
  6. Se indeferido, parta para recurso ao CRPS ou ação judicial, onde a prova testemunhal tem mais peso.

A comprovação de união estável é onde mais se perde pensão por morte. Um advogado pode revisar a documentação e indicar o melhor caminho.

Perguntas frequentes

União estável de 1 ano dá direito à pensão?

Sim, mas com duração limitada a 4 meses (união com menos de 2 anos). Exceção: óbito por acidente de qualquer natureza ou por doença profissional ou do trabalho (art. 77, §2º-A).

Companheira casada com terceiro pode receber pensão de companheiro falecido?

Não, em regra. Para configurar união estável, não pode haver impedimento legal (casamento anterior não dissolvido). Há exceções analisadas caso a caso.

Sem escritura, posso conseguir pensão por união estável?

Sim. Escritura é apenas uma das provas. Documentos do dia a dia (plano de saúde, contas, IR conjunto, filhos) somados a testemunhas costumam ser suficientes em juízo.

Companheiro homoafetivo tem direito?

Sim, equivalência total reconhecida pelo STF em 2011. INSS aceita administrativamente. Negativa por motivo de orientação é discriminação e tem caminho de defesa imediato.

Quanto tempo dura a pensão para o companheiro?

A duração depende da idade do companheiro no momento do óbito, de 3 anos a vitalícia (vitalícia a partir dos 45 anos, para óbitos desde 2021), conforme a tabela da Lei 13.135/2015 com as faixas atualizadas pela Portaria ME 424/2020. O detalhamento está no guia de pensão por morte.

Posso comprovar união estável só com testemunhas?

Não. É necessário pelo menos um início de prova material (documento contemporâneo). A prova exclusivamente testemunhal não basta, mas, somada a documentos, é decisiva, especialmente na via judicial.

Veja também

Fontes